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Música
+ Androginia = Glam + New Romantic + Britsh Pop
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| André
Abrantes é DJ, jornalista, assessor de
imprensa e possui um acervo de mais de 5.000 CD's. |
Uma
breve história:
Secularmente,
a androginia é atribuída a Adão.
Sendo a criatura feita à semelhança do
seu Criador, antes do pecado originário também
era o reflexo imediato da bipolaridade de Deus. Em Gênesis,
Adão e Eva, antes da queda, eram imagem harmoniosa
do masculino e feminino juntos, inseparáveis.
Conta Platão, em O banquete, que de Aristófanes
extrai-se a teoria sobre o existência de três
sexos: masculino, feminino e andrógino.
Cada um dos seres tinha a forma de uma bola, com quatro
braços e quatro pernas, duas caras numa mesma
cabeça e dispunham de poderes excepcionais. No
dia em que se atreveram a avançar sobre o Olimpo,
Zeus usou a tática de dividir o inimigo:
com o auxílio de Apolo, talhou-os ao meio, reduzindo-os
à forma de humanos. Da cisão do andrógino
surgiram o homem e a mulher, condenados a perseguir,
em sofrimento, a metade partida pelos deuses.
Depois
desse pequeno resumo, a música percebeu de longe
que o batom e as unhas pintadas ficavam bem em garotos,
assim como a gravata caíam direitinho em garotas.
O boom de todo esse comportamento deu suas graças
ao mainsteam em torno de 1972, o ano em
que o rock ficou, digamos, um pouco mais colorido. O
surgimento de artistas performáticos, dados por
alguns como "esquisitos", mas seguidos por
fãs insandecidos, estava mostrando um fenômeno
que seria um caminho sem volta.
Alguns
dos principais exemplos de toda essa transformação
que largou de mão os ternos bem cortados e, mais
tarde, o psicodelismo, mostram-se na ascensão
do glam rock de astros como David Bowie e seu
personagem andrógino Ziggy Stardust, T-Rex,
Elton John, com suas plumas e os indefectíveis
óculos de strass, e Mick Jagger,
abandonando o lado pseudo-moderninho e deixando-se levar
pelos encantos do blush e afins, como é
possível verificar no clip da música Fool
to Cry. O glamour, definitivamente, estava dando
início a um vasto campo de criatividade para
artistas que viram na androginia, o caminho perfeito
pra associar a música à melancolia que
estariam por vir nas próximas décadas.
Quando
a MTV começou a realizar suas transmissões
nos Estado Unidos, em agosto de 81, havia poucas bandas
americanas que produziam clips. A solução,
então, adotada para preencher os seus horários
foi importar clips feitos na Inglaterra, onde o formato
era mais difundido. O auge do estilo new romantic
(estilo inglês, por excelência) se deu mais
ou menos nesta época, e ele se aproveitou muito
desta nova forma de linguagem. A corrente new romantic,
que também admitia o título de futurista,
era sobre tudo uma vitória do visual sobre a
essência que quebrava o limite da maquiagem. Visuais
à Luis XV e outros daquela Corte vieram bem a
calhar quando as rendas entraram em ação,
mesclando veludo, couro, pan cake, teclados e
ombreiras. Pronto! Estava criado o synth pop.
O
NR surgiu em 78, e tendo David Bowie como ídolo
máximo, o movimento usava como base a escola
cold-wave (notoriamente, Gary Numan) e o tecnopop com
a sua sonoridade de fácil assimilação
mas, irresistivelmente divertida. A androginia foi fundamental
para unir estética, comportamento e música
numa época que, até então, os video
clipes se valiam apenas por sets de shows ou filmagens
de apresentações fake. Desta forma
o Visage, o Human League, a divertida
Tony Basil, o Eurythmics e a sempre perfeita
Annie Lennox, o Classix Nouveaux, o Soft
Cell entre tantos outros desfilavam o seu glamor
sobre uma musicalidade artificialmente pop e uma indumentária
verdadeiramente confusa.
O
Duran Duran instalou o seu teenage pop mas, ótimo,
o Culture Club e o seu vocalista Boy George,
talvez o mais representativo de toda essa cena make-up,
também conseguiu enorme popularidade fazendo
uma perfeita mistura de funk, soul, rock e pop, Adam
& The Ants rebuscava a fantasia com doses de
punk nas suas composições e o Spandau
Ballet carregava grande dose de elegância
no seu formato. O que todos eles tinham em comum? Todos
usavam maquiagem e faziam do visual, o principal elemento
de cada performance. A música, sem sombra de
dúvidas, ficava em segundo plano diante de uma
época em que tudo era muito novo e a criatividade
explodia.
1983,
a maquiagem estava saindo do sintetizador e voltando
para o rock. O Twisted Sisters, juntamente com
bandas como Dokken, Mottley Crue e Ratt, uma
das bandas responsáveis pela definição
do termo glam-rock ou glitter-rock em que a aparência
e performance de palco das bandas era tão importante
quanto sua música, levaram aos extremos este
conceito, se apresentando sempre com um visual de drag
queens bizarras, roupas andróginas com maquiagem
feminina extremamente pesada e de mau gosto aliadas
a músculos e caretas masculinas. Estava formado
o trash glam. Mais do que visual exdrúxulo,
estas bandas possuiam grande carisma musical, conseguindo
gerar músicas com muita identidade, refrões
agressivos gritados em uníssono, e acima de tudo
verdadeiros hinos ao rock and roll e à rebeldia.
Entra em cena o hairspray e as cabeleiras super
armadas.
Por
um outro lado, também nos anos 80, o rock ganha
mais adeptos ao batom mas, felizmente, sem abandonar
o real sentido do rock. Robert Smith, The Cult, Echo
e o The Mission são alguns dos mais
expressivos representantes de uma cena britsh pulsante
que valorizava não só apenas bocas pintadas
mas, também, riffs, vocais e melodias
apuradas que até hoje, são hits de pista.
Um outro lado do Reino Unido sacou de longe que a androginia
aliada ao clima gélido da região provocaria
furor pelo mundo. The Associates, Aztec Camera, Everything
But the Girl e a mais do que perfeita Tracey Thorn,
Propaganda, The Alarm e tantos outros, provaram
por A mais B que o luxo seria fundamental para expressar
a sua musicalidade.
Afinal,
qual é a razão da androginia e ambigüidade
sexual fazer tanto sucesso no universo rock, na Inglaterra,
em especial. Volta e meia aparece algum sujeito vestindo
roupas estranhas, cantando letras pervertidas e todo
mundo adora. Exemplos não faltam: Suede, Smiths,
Marylin Manson. Todos causaram (ou causam) agitação
e de uma maneira ou de outra garantem seu lugar na "história"
da música.
Em
1996, surgiu mais uma figura para engrossar essa lista:
Brian Molko e sua banda, o Placebo. Admito,
levei um tempo para entender que se tratava de um homem.
O primeiro álbum da banda Placebo, com
a ajuda do hit single Nancy Boy, conseguiu a
proeza de mobilizar toda a mídia britânica
e transformá-los em queridinhos de veículos
tradicionais como o NME ou Melody Maker. Isso porque
a banda aliava guitarras a mil por hora com letras ultra-pervertidas
e, é claro, aquele irresistível visual
glam-gótico-andrógino.
Brett
Anderson, vocalista do magnífico Suede
chocou com seu primeiro vídeo Animal Nitrade.
Vestindo uma baby look e calças de couro, o rapaz
misturou com muita elegância, se que isso é
possível, sado, lamentos e guitarras. A sua androginia
foi assimilada de forma quase natural. Afinal, estávamos
no início dos anos 90, época em que o
acid house abria caminhos para novas nuances estéticas.
Quem não se lembra do S-Express?
Ainda
estamos no início de um novo milênio e
o que se percebe é que a imagem cada vez mais
está se distanciando da música. Projetos
são lançados todos os dias e o descartável
ficou mais descartável do que nunca. Se a indústria
de cosméticos anda junto com a indústria
fonográfica, ninguém sabe mas, uma coisa
é certa, o modismo ainda é o messias perfeito
para ditar comportamentos e visuais.
"Girls who are boys
Who like boys to be girls
Who do boys like there girls
Who do girls like theyre boys
" Damon
Albarn
André
Abrantes
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