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KEN KESEY, O APRONTADOR
Ele
fazia festas enlouquecidas onde o povo dançava perdido
dentro dos sons com a assistência de certos produtos
quimicos. A decoração dos seus eventos, que
atraíam todo tipo de gente interessada em novidade
e aventuras malucas, era carregada de cores fluorescentes
acesas por luzes negras. Havia também muitas luzes
estrobos e coloridas. O som era repetitivo, hipnótico.
E a balada só acabava na manhã do dia seguinte,
claro.
Não,
Ken Kesey não era nenhum promoter de raves ou clubes
da atualidade. Suas festas, conhecidas como "acid tests"
("testes do ácido"), aconteceram no meio
da década de 60 e para milhares de pessoas serviram
de introdução à cultura do LSD e da contra-cultura
hippie/psicodélica. Essas festas foram o ponto alto
de uma cruzada iniciada anos antes por Kesey e a qual logo
se juntaram dezenas de cabeças inquietas da região
de São Francisco, EUA. A turma de Kesey se intitulava
os Merry Pranksters ("aprontadores felizes") e seu
objetivo era infiltrar na sociedade americana o ácido
e a transformação mental-ideológica que
ele supostamente proporcionava.
Alguns
hippies eram mais politizados e militantes, outros mais complacentes
e esotéricos, outros ainda queriam montar comunidades
rurais e até a corte de Timothy Leary (o guru-mor do
LSD) trazia uma abordagem mais acadêmica, intelectualizada
e cheia de planos conspiratórios. Mas o pessoal de
Ken Kesey queria mesmo era tomar doce para zoar o barraco,
fazer festa e curtir umas trips fabulosas.
Nascido
em 1935, o escritor Kesey sempre foi um exemplo na escola.
No colegial, foi eleito "aquele com mais chance de dar
certo na vida". Pois é, um dos maiores heróis
da contra-cultura, considerado "perigoso" pelo governo
americano, já tinha sido um exemplo a ser seguido em
outros tempos. Alguns anos depois, Kesey foi estudar técnicas
de escrita criativa na Califórnia, em Stanford. Lá,
para ganhar um dinheiro extra, participou de uma experiência
da faculdade de psicologia que envolvia ingredientes químicos
como mescalina e LSD. Foi aí que sua vida mudou para
sempre. Logo ele estava andando junto com os malucos e boêmios
da área e pregando os benefícios da expansão
mental e sensorial oferecida por essas drogas.
Em
1962, lançou Um Estranho No Ninho, seu livro
de maior sucesso e um autêntico clássico da época
(o sucesso foi tanto que o livro virou filme, tinha Jack Nicholson
no papel principal e ganhou uma porção de Oscar).
Pouco depois, Kesey se mudou para um rancho em La Honda (perto
de São Francisco) com seu grupo que passaram a se chamar
Merry Pranksters. Além de fazer várias festas
psciodélicas no sítio, com ponches super-batizados,
eles compraram um ônibus escolar velho e o pintaram
com várias cores berrantes.
No
meio disso tudo, Kesey publica seu segundo livro, Sometimes
A Great Notion, em 1964. As festinhas de La Honda evoluíram
para as festas do Teste do Ácido (no flyer a frase
"VOCÊ consegue passar no teste do ácido?").
Eram bem maiores, mais produzidas e cada vez mais populares.
Com a Califórnia inteira embalada pelas novas sensações
lisérgicas e a coisa saindo de controle rapidamente,
o governo americano declara o LSD ilegal em 1965.
Os
Merry Pranksters resolveram nesse meio tempo se amontoar no
seu ônibus e atravessar a América. Foi uma jornada
longa e delirante, cuja conclusão foi um encontro com
Timothy Leary na outra ponta, em Nova York. A viagem (e muito
da vida prévia de Kesey) está relatada no fantástico
livro de Tom Wolfe The Electric Kool-Aid Acid Test
(em português, O Teste do Ácido do Refresco
Elétrico; não sei se ainda está em
catálogo mas não é difícil de
encontrar).
Com
o cerco oficial fechando, Kesey e alguns Pranksters fugiram
para o México. Quando Kesey voltou para os EUA alguns
anos depois, foi preso na sequência por posse de maconha.
Depois que saiu, se mudou para uma fazenda no Oregon para
cuidar de sua família. Só publicou seu terceiro
livro de ficção, "Sailor Song", em
1992. Mas ele nunca sossegou totalmente. Disse, por exemplo,
no seu site pessoal que vira e mexe sentia uma coceira de
fazer "algo estranho".
Em
10 de novembro passado ele perdeu sua luta contra o câncer.
Kesey nunca vai estar em nenhuma das listas de Grandes Personalidades
do Século 20 de revistas como Veja ou Time. Mas na
galeria da fama daqueles que vivem ou acreditam no underground,
no diferente, no alternativo, no inquieto, no anti-convencional,
seu lugar é certamente um dos de maior destaque.
CAMILO
ROCHA
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