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| Camilo
Rocha envia toda semana as novidades do mundo eletrônico
e alternativo |
A PARADA É O SEGUINTE
A
experiência de dançar música eletrônica
sem se preocupar com o resto do mundo se divide em três
tipos principais: dançar num clube fechado, dançar
ao ar livre no meio da natureza e dançar no asfalto
onde normalmente passam carros, nas ruas de uma cidade onde
costumam acontecer atividades normais como trabalho, estudo
ou lazer familiar. Essa última é a mais especial,
já que são poucas as oportunidades dela acontecer.
Domingo,
em São Paulo, será a única chance que
teremos de fazer isso no Brasil esse ano. E a Parada da Paz
esse ano quer levar 70 mil pessoas, o dobro de pessoas do
ano passado. Imagine uma balada normal, com tudo a que se
tem direito, só que em vez dela começar uma
da manhã ela começa uma da tarde. E, como pano
de fundo, o Parque do Ibirapuera, o Obelisco, o Monumento
das Bandeiras e as padarias e postos da Avenida República
do Líbano. Como é possível ficar em casa?
É
um carnaval eletrônico, uma realidade paralela onde
por algumas horas a cidade parece que foi tomada pelo povo
da balada, do tecno, do house, do drum'n'bass, do trance,
os clubbers, os ravers, os fashion, os hippies, os ocasionais,
os hardcore, os nerds, os de Itaquera, os do Morumbi, os veteranos,
os recém-chegados e todas as outras variações
desse universo que cresce a cada ano no Brasil.
Em 1995 fui para a Love Parade de Berlim. Vinha com um amigo
de trem de Praga. A medida que o trem chegava perto de Berlim,
ia ficando mais e mais cheio com galera indo para a parada.
Na estação em Berlim já havia um bando
com capacidade de deixar uma vizinhança sem dormir.
Imagine entrão 400 mil, que foi o número de
pessoas da Love Parade aquele ano (a desse ano registrou prá
cima de 1 milhão e meio, mais que a população
de Campinas).
A
impressão era de que tinha acontecido uma revolução
e o povo festeiro tinha dominado a cidade. Os metrôs
iam lotados de gente colorida, fumando "beques",
dançando, apitando e pulando. De tão cheios,
vagões das linhas de metrô de superfície
viajavam com as portas abertas e pessoas com os braços
para fora dando socos de empolgação no ar.
Na
avenida por onde passava a parada, tinha gente pendurada nos
postes dos faróis e placas de trânsito. As marquises
foram ocupadas por dezenas de dançarinos, acompanhando
a procissão de trios-elétricos que tocavam do
trance ao gabba. E dos apartamentos ao longo do percurso moradores
jogavam baldes de água para refrescar o povo, suado
pela dança e pelo calor nada comedido do verão
alemão. O panorama era espetacular.
A
idéia das paradas espalhou pela Europa, depois do crescimento
da berlinense. Quando começou em 1989, idéia
do DJ e freak local Dr. Motte, foi prestigiada por umas 100
pessoas. Três anos depois já tinha virado um
evento de peso. Zurique, na Suíça, começou
a sua, a Street Parade. Lá, insanos de todas as tendências
e nacionalidades, desfilam seus batuques e brincadeiras às
margens do belíssimo Lago Zurique. A última
teve mais de meio milhão de participantes.
Em
1999, Paris se juntou ao clube com sua Techno Parade, que
já na primeira edição juntou entre 300
e 400 mil pessoas. E Tel Aviv, em Israel, também já
promove a sua. O Reino Unido segue atrás vacilando,
emperrado por leis paranóicas e autoridades locais
antiquadas. Em 2000, realizou sua primeira Love Parade, em
Leeds, congregando umas 400 mil pessoas. A segunda estava
com tudo em cima para acontecer esse ano em Newcastle mas
foi cancelada na última hora porque autoridades regionais
acharam que ela não seria "segura". Estima-se
que o evento traria uns 25 milhões de dólares
para a cidade.
Enquanto
isso, em Berlim, a Love Parade já é há
alguns anos o acontecimento que traz mais dinheiro para a
cidade. Por isso, lembre-se: esse domingo é dia de
ir para a rua e rachar o asfalto.
CAMILO
ROCHA
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