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Camilo
Rocha viajou a N.York no dia dos atentados - leia entrevista
O
colunista do Bits, Camilo Rocha, esteve em N.York na semana
dos atentados terroristas de 11 de setembro. Ele viajou para
fazer a cobertura do Red Bull Music Academy, que estava acontecendo
em N.York na semana do atentado. Camilo chegou em Manhattan
duas horas antes do primeiro ataque. E ele contou ao Bits,
por telefone, da casa dos tios, em Uttica, uma cidade do norte
do estado de N.York, como estava a situação
por lá. O racismo contra os árabes, o pavor
de novos atentados, o luto dos novaiorquinos e como estava
a noite de Manhattan naquela semana tão louca. Confira...
Bits
- Como foi a sua chegada a N.York?
Camilo
- Meu avião, da American Airlines, chegou às
6 horas da manhã em N.York. Cheguei no hotel umas 7
e pouco e meu quarto ainda não estava pronto, pois
o check in era só ao meio-dia. Fiquei perambulando
pelo saguão do hotel e fui ao Business Center checar
meus e-mails. Foi quando uma moça me disse que havia
acontecido um acidente e que um avião tinha batido
no World Trade Center e um no Pentágono.
Bits
- Você não ouviu o barulho?
Camilo
- O hotel fica na 49 com Lexington, na região Midtown
Manhattan, bastante longe do World Trade Center. N.York é
bem grande e barulhenta e eu estava a umas 70 quadras do acidente.
Logo depois já tinham colocado duas televisões
no saguão do hotel. Então fui mandar um e-mail
para os meus pais, inclusive porque meu vôo era da American
Airlines, justamente a companhia de um dos aviões que
foram sequestrados. Na verdade eu dei sorte porque se o meu
vôo fosse um daqueles que chega às 8 horas da
manhã eu nem teria entrado em N.York. Talvez não
tivesse nem descido do avião e tivesse ido parar no
Canadá ou teria ficado no aeroporto o dia todo. Foi
um grande susto mesmo.
Desci
para o saguão e tinha uma multidão acompanhando,
muita gente chorando, gente desesperada, gente preocupada
e depois, quando eu subi pro quarto, dava prá ver a
fumaceira lá de longe. Eu olhava para o sul, pela janela
do quarto e via aquela fumaça à distância,
no horizonte.
Nesse
dia eu fiquei no hotel quase o dia todo, porque estavam recomendando
de nem sair. Eu sai um pouquinho, prá comprar alguma
coisa na rua.
Bits
- E tinha lojas abertas?
Camilo
- Tinha algumas. Lojas de conveniência, pouca coisa.
O resto tudo fechado e sirene o dia todo: ambulâncias,
bombeiros, polícia.
Bits
- E o que você sentiu quando viu isso tudo?
Camilo
- Senti um misto de não acreditar o que estava
acontecendo e de choque. Prá mim parecia uma coisa
de filme. Demorou prá mim, até agora, ainda,
a ficha tá caindo. Eu não consigo ainda imaginar
o que está acontecendo e pensar que agora você
olha de um prédio alto para a paisagem de N.York e
não vê mais o World Trade Center. É como
se tivessem jogado uma bomba no Pão de Açúcar.
De repente o Pão de Açúcar não
existe mais, imagina! É difícil de entrar na
cabeça isso.
Bits
- E o Marcelo Schild (um dos brasileiros selecionados para
o Red Bull Academy), você encontrou com ele?
Camilo
- Fui encontrar com o Schild só na sexta-feira, pois
ele e os outros participantes do RBMA estavam hospedados num
alojamento especial do evento. A namorada dele também
estava em N.York e estava hospedada num apartamento que fica
na área ao sul da rua 14, área esta que tinha
sido evacuada e isolada pela polícia. Isso aconteceu
por um raio de dois quilometros a partir do WTC. O Schild
acabou vivendo mais de perto que eu a situação,
já que a namorada dele ficou sem poder chegar perto
da casa onde estava hospedada durante dois dias. Uma vez tentaram
ir e os policiais não deixaram passar e então
foram num outro setor onde conseguiram convencer o guarda
a deixá-los passar, pois o guarda queria que chamassem
o dono da casa. As pessoas tinham de provar que moravam ali
com algum comprovante de endereço.
Na
sexta feira fui com o Schid na casa onde estava a namorada
dele e já tinham liberado essa área perto da
rua 14 e as coisas já estavam voltando ao normal. Andamos
até o limite onde se podia ir, perto do World Trade
Center. Perto da Canal Street. Nessa parte tinham mais ou
menos uns 30 caminhões de televisão e ali tinha
uma multidão com velas, bandeiras, cartazes. Tinha
vários veículos militares passando, ambulâncias
e bombeiros. Cada vez que passavam todo mundo aplaudia e gritavam
"USA".
Bits
- O que você achou desse sentimento de patriotismo que
você viu em N.York? Você acha que seria a mesma
coisa se fosse aqui no Brasil?
Camilo
- Eu acho que sim. É o tipo de coisa que mexe muito.
Um ataque ao país. Eu acho que seria a mesma coisa.
Eu acho que os atentados fizeram reviver esse sentimento de
patriotismo deles, mas, ao mesmo tempo, tem gente que está
levando para o outro extremo. Já estão tendo
vários ataques a árabes pelos Estados Unidos
inteiro. Ataques a mesquitas, a institutos arabes. Teve um
dono de posto de gasolina que foi morto no Arizona, porque
ele se parecia com gente do Oriente Médio, mas ele
era da Índia.
Meus
tios que moram em Uttica, ao norte de N.York, disseram que
viram numa loja um cara que dizia pro amigo: "Só
estou esperando o presidente Bush dar a ordem que eu vou lá
pegar eles" referindo-se a seus vizinhos, que são
árabes. Uttica é uma típica cidade de
subúrbio americano, com 60 mil habitantes e bem republicana.
Todas as casas da rua estão com a bandeira americana
e também uma coroa de flores na frente. Os meus tios,
apesar de serem brasileiros, tiveram que colocar também,
para não destoar dos vizinhos. Tem de entrar um pouco
na viagem deles. Se você não coloca, pode ser
visto como se colocando contra.
Bits
- E mais alguma coisa que você viu em N.York?
Camilo
- Estou hospedado agora em um apartamento, que fica ao lado
de um Corpo de Bombeiros e um deles morreu no World Trade
Center então na frente está cheio de coroas
de flores e velas e as pessoas fazem vigília ali. E
também está cheio de cartazes de desaparecidos
em pontos de ônibus, postes, lojas. Cartazes que as
pessoas fazem em casa mesmo, no computador. Tem muita gente
que ainda tem esperança de encontrar a pessoa: um conhecido,
amigo ou familiar. Mas pelo que estou vendo não deve
ter sobrado ninguém a essa altura do campeonato.
Bits
- Como o Red Bull Music Academy foi afetado pelo atentado?
Camilo
- Foi cancelado e foi adiado para Dezembro ou Janeiro. Primeiro
porque o lugar aonde estava acontecendo o RBMA era justamente
naquela parte que foi isolada, no sul de Manhattan. Mas além
disso, ninguém mais tinha ânimo de fazer mais
nada, de continuar. Vários convidados, palestrantes,
por exemplo vinha de Londres o Terry Farley, eles não
poderiam chegar.
Bits
- Tinha o Ritchie Hawtin também?
Camilo
- O Ritchie Hawtin ia dar sua palestra na terça feira
e o Derrick Carter tinha feito a dele na semana anterior.
O Ritchie Hawtin estava na cidade já e deve ter ficado
preso, assim como todas as outras pessoas. Nos primeiros dois
dias não tinha nem trem nem ônibus para sair
da cidade que ficou fechada mesmo. Todas as pontes e os túneis
ficaram fechados.
Bits
- E o Christian Smith? Ele viria pro Brasil na semana passada.
Camilo
- O Christian Smith, como eu disse na última Volume
10, tem essa noite chamada Tronic Treatment, toda segunda
feira no Guernica. Eles fizeram lá uma noite especial
na sexta feira passada para arrecadar fundos para as famílias
dos bombeiros que morreram no World Trade Center. No lineup
tinha o Christian Smith, o Ritchie Hawtin e mais alguns DJs
daqui de N.York. O Adam X também.
Bits
- E você foi?
Camilo
- Não fui, estava muito cansado, mas no dia seguinte
conversei com uma pessoa que tinha ido, que estava na loja
de discos Satellite, e ele me disse que tinha sido muito legal
e que tinha lotado.
Bits
- E a noite em N.York, deu prá ver alguma coisa? O
negócio, mesmo antes do atentado, já andava
meio parado não?
Camilo
- Estive nas lojas de disco Satellite e na Sonic Groove. Aliás
na Sonic Groove tinha um fax do Laurent Garnier na parede,
um fax de apoio dele e dando uma força. Estive também
na Vinyl Mania.
A
vida noturna deu uma boa parada na semana que passou. Sempre
tem coisas acontecendo em N.York. No Centrofly tava rolando
sempre umas festas, no Vinyl, a noite do Danny Tenaglia, tem
o Body and Soul. Parece que o Body and Soul já voltou
e já ia rolar no domingo que passou. Mas até
sexta estava tudo cancelado. É aquela história:
não dá prá ficar festejando, fazendo
balada quando o ânimo da cidade é outro. Aqui
todos os noticiarios só mostram o atentado, parece
que não existe outra notícia, tudo ligado com
isso o dia inteiro. No dia do ataque e no dia seguinte não
tinha transmissão da MTV. Eles ficaram retransmitindo
CNN. O VH1 também fez isso, os canais de esporte também.
Tudo quanto era jogo foi cancelado.
Tem
uma coisa que me deixou chocado, a gente fica falando do Brasil...
Uns golpes que estavam fazendo pelo telefone, tipo ligando
para as pessoas como telemarketing. Ficavam pedindo às
pessoas doações para um fundo de ajuda às
vítimas do WTC e era tudo mentira. E um outro golpe
era que ficavam na frente dos hospitais onde estão
os feridos e pediam o número de social security (uma
espécie de CPF) da pessoa para procurá-la e
eles pegavam esse número na verdade para praticar fraudes
já que muitas dessas pessoas estavam mortas. Achei
isso o fim da picada, como um cara pode chegar a um nível
tão baixo assim.
Acho
que o atentado marca uma nova fase para os Estados Unidos
que tinham uma sensação de segurança
muito grande, diferente da Europa que está acostumada
com atentados, na Inglaterra tem o Ira, na Espanha tem o ETA.
Aqui nos Estados Unidos não se tinha essa noção
apesar de que aqui já havia acontecido, como a bomba
em Oklahoma. Mas em geral os americanos se sentiam bem seguros
e agora já foi esse tempo. Até o final da semana
passada já tinham feito 90 trotes de bomba aqui em
N.York e cada vez que tem um trote desses eles tem de evacuar
a área e tudo mais e vai ficar assim por muito tempo.
O Empire State está fechado ainda, porque teve uma
ameaça de bomba lá também.
Bits
- Eu estou com muito medo do que vem por aí, dessa
guerra
Camilo
- Pois é, com certeza muita gente inocente vai morrer.
Agora os Estados Unidos vão atacar o Afeganistão
e muita gente que não tem nada a ver com a história
vai morrer também. O problema é que o contexto
é muito maior. A política externa dos Estados
Unidos sempre foi uma politica externa bem escrota, então,
por exemplo, o Bin Laden foi armado pela CIA por muito tempo.
Quando a União Soviética invadiu o Afeganistão
os Estados Unidos armaram os guerrilheiros que eram contra
a invasão da Russia. O Bin Landen estava entre esses
guerrilheiros. Esse Taliban, que está no poder, foi
apoiado pelo governo do Paquistão que é um governo
pró-americano também, é um aliado dos
Estados Unidos na região.
Outra
coisa interessante que notei é que aqui nos Estados
Unidos está cheio de estudantes do Oriente Médio
e a maioria desses caras que são suspeitos de terem
sequestrado os aviões, entraram como estudantes nos
Estados Unidos. Meu tio é reitor da Universidade de
Uttica e ele me disse que vários estudantes de origem
árabe vão voltar prá seus paises, morrendo
de medo. Vários dos Emirados Árabes. Meu tio
teve um reunião com o pessoal da Universidade para
decidir como vão fazer com essa questão, os
estudantes agora estão apavorados com esse sentimento
anti-árabe fortissimo e acontece que a maioria deles
vão acabar voltando prá seus paises.
Bits
- E no final, você está gostando da viagem?
Camilo
- Eu estou adorando estar aqui, na verdade. Apesar de
tudo isso, tem uma coisa que eu pensei que é o seguinte:
apesar de toda desgraça que esses fatos representam,
toda perda e as mortes, é uma coisa prá contar
pros netos, um dos fatos mais importantes deste século.
Bits
- Até hoje provavelmente este é o fato histórico
mais importante que a gente presenciou, as pessoas que tem
a nossa idade, da nossa geração e os mais novos.
Camilo
- Com certeza de longe é o maior atentado terrorista
que teve nos Estados Unidos e em todo o mundo. Nesse ataque
em N.York morreram 300 ingleses, o maior número de
mortes de ingleses num único atentado, desde a Segunda
Guerra Mundial. É um negócio muito forte.
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