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Diário de Bagdá mostra o cotidiano dos únicos repórteres brasileiros a presenciar o auge do conflito no Iraque

Convite do lançamento do livro Diário de Bagdá, de Sérgio D'Ávila, com fotos de Juca Varella

Foi na verdade num golpe de sorte, mas também com uma boa estratégia e muita paciência que o jornalista Sérgio D’Ávila e o repórter fotográfico Juca Varella conseguiram o visto de entrada para poder cobrir a Guerra no Iraque. D’Ávila foi pelo caminho inverso de todas as grandes redes e veículos de comunicação brasileiros. Ele preferiu tentar o visto aqui no Brasil mesmo e, enquanto outros desistiram, Sérgio preferiu continuar insistindo com o embaixador do Iraque em Brasília. Tanto insistiu que, como não teve muita concorrência, já que a maioria preferiu tentar por outros caminhos fora do Brasil, acabou conseguindo o visto para si e para o companheiro fotógrafo.

Foi um exercício de paciência lidar com o embaixador do Iraque em Brasília, considerado “enrolador”. Sérgio teve de se adequar às estapafúrdias exigências do diplomata iraquiano, como teste de Aids, ausência de carimbo de passagem por Israel, no passaporte e, obviamente, ausência de nome judeu. Nada disso intimidou Sérgio D’Ávila, que continuou insistindo e, no final, ele e Juca acabaram sendo os únicos jornalistas brasileiros que estiveram em Bagdá durante o auge do conflito.

Sérgio D’Ávila publicou diariamente na Folha de São Paulo e na Folha Online seus diários da Guerra do Iraque, um documento valioso, mostrando uma visão mais próxima da nossa identidade sobre um conflito noticiado em todo e qualquer veículo no mundo inteiro, com notícias principalmente fornecidas pelas grandes agências internacionais, como Reuters, France Presse e Associated Press. A Follha foi o único veículo a ter um olhar brasileiro em Bagdá com a manutenção de seus repórteres na cidade invadida.

Acaba de ser lançado o livro Diário de Bagdá, com textos inéditos de Sérgio D'Ávila e fotos do companheiro Juca Varella, contando como foi a cobertura da guerra, do ponto de vista dos bombardeados.

É um momento muito oportuno para o lançamento deste livro, enquanto o conflito continua a fazer vítimas tanto entre americanos quanto entre iraquianos. E quando o Primeiro Ministro da Inglaterra, Tony Blair, mergulha na maior crise política de seus seis anos como premiê, após o escândalo da morte do microbiólogo David Kelly, fonte de reportagem em que a rede de TV BBC acusou o assessor de imprensa de Blair de incluir informações duvidosas em dossiê sobre o arsenal de armas químicas e biológicas de Saddam Husseim. O dossiê foi utilizado para obter respaldo da Inglaterra à invasão do Iraque.

Terá sido tudo uma grande farsa?

Num debate que aconteceu em maio deste ano no Centro Cultural Itaú, em São Paulo, D’Ávila contou muitos fatos, até mesmo alguns engraçados, do que foi a sangrenta guerra do presidente Bush ao Iraque. Deste debate participou o repórter Carlos Fino, da RTP, a televisão portuguesa. Carlos Fino foi o repórter que “furou” todas as grandes redes de TV e entrou primeiro em cadeia mundial reportando os primeiros bombardeios em Bagdá, o que marcou o início da Guerra do Iraque. Deste debate participaram também Moisés Rabinovici, jornalista com 37 anos de atuação, que cobriu para o Grupo Estado de São Paulo conflitos no Oriente Médio, na América Central, no leste Europeu e na África e Carlos Eduardo Lins e Silva, diretor do jornal Valor Econômico. Heródoto Barbeiro foi o mediador.

O intuito do debate Mídia e Guerra: Cobertura Imparcial? foi discutir a liberdade de imprensa versus interesses militares, políticos e econômicos envolvidos num conflito internacional, além do dia-a-dia dos correspondentes e a atual “estética” da guerra. Foi uma verdadeira aula de jornalismo e uma reflexão ética sobre a profissão.

Durante o debate foi mostrada uma foto bastante engraçada de Sérgio D’Ávila, com um colete especial com placa de cerâmica e um capacete, o que conferiu-lhe o apelido de “playmobil”. Esta foto, apesar de engraçada, mostra como correm perigo os jornalistas num conflito dessas dimensões. Na Guerra do Iraque morreram 13 jornalistas, sendo que dois deles num bombardeio ao Hotel Palestine, destinado exclusivamente à imprensa e no qual haviam estado hospedados também Sérgio e Juca (mas não naquela semana). A versão americana para o equívoco foi de que houve uma confusão onde os soldados americanos confundiram as câmeras da imprensa com armas voltadas para as forças da OTAN...

Os relatos dos correspondentes durante o debate mostraram que não existe na realidade o termo “guerra cirúrgica”, que surgiu na época da Guerra do Golfo, em 1991, para justificar a “guerra rápida” e "antisséptica" da era contemporânea. Moisés Rabinovici perdeu 40% da audição cobrindo um conflito em Beirute. Sérgio D’Ávila e Juca Varella correram risco de vida durante todo o tempo em que estiveram em Bagdá.

Na verdade a profissão de jornalista é uma das mais arriscadas que existem e não é necessário ir tão longe, a Bagdá, para atestar isso, haja visto o ocorrido com o repórter fotográfico da Revista Época, La Costa, que foi assassinado a queima roupa numa confusão em frente à invasão do MST no terreno da Volkswagen, na região paulista do ABC, em julho.

Diário de Bagdá chega portanto em boa hora para se refletir sobre conflitos inexplicáveis e as mazelas do cotidiano dos jornalistas, cobrindo conflitos sangrentos e arriscando suas vidas.

 

 

 

 
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