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A israelense Jiga, do duo trance Analog Pussy, fala sobre o conflito Israel-Palestina
Ouça a faixa Revenge Of the Toys, do novo álbum do AP - Underground

Jiga do Analog PussyO duo israelense Analog Pussy existe desde 1998 com esse nome, porém o casal Jinno e Jiga trabalham juntos a cerca de 7 anos, compondo e produzindo música eletrônica de vários gêneros, do house ao ambient, passando pelo techno e o trance. Em 1998 começaram a se apresentar ao vivo em Israel, conquistando a cena trance local. Em 1999 lançaram seu primeiro álbum, Psycho Bitch From Hell, que foi um estouro internacional. Desde então têm se apresentado em várias partes do mundo, em festas underground, grandes raves e clubes. Em 2000 o casal mudou-se para a Alemanha e trabalham juntos numa linha tech-trance e fazendo turnês que passaram pelo Brasil (Manga Rosa em São Paulo e Bunker, no Rio) e pelos Estados Unidos. Este ano estiveram tocando em vários países da Europa, novamente nos Estados Unidos e também no Canadá. Eles acabam de lançar seu segundo álbum, Underground, o primeiro lançado pelo seu próprio selo, o AP Records.

O Analog Pussy sempre teve uma presença forte na internet, seja através de seu próprio site oficial, seja nos sites onde colocam suas faixas em mp3. Em 2001 foram prejudicados pelo site MP3.com, em polêmica expulsão do maior site legalizado de MP3 dos Estados Unidos. Nos primeiros 5 meses faixas do Analog Pussy foram baixadas mais de 1 milhão de vezes do MP3.com e 10 delas foram eleitas numero 1 no ranking do site. Após a venda do site para um grupo francês o duo Analog Pussy foi banido do site MP3.com, acusado de atividades "subversivas" que não foram explicadas.

Jiga, o lado feminino do duo, é uma mulher forte e, apesar de afirmar o contrário, é uma feminista inverterada. É sempre a porta-voz do grupo que tem tido um sucesso enorme na cena Goa-Psy-trance.

Aqui Jiga conta ao Bits um pouco sobre o seu ponto de vista sobre o conflito Israel-Palestina, que tem tido alguns de seus piores momentos nos últimos dias.

Bits: Você acha que a situação entre palestinos e Israelenses mudou depois dos ataques terroristas de 11 de setembro?

Jiga: Não mudou na verdade. Está a mesma coisa de antes.

Bits: Você acha que as negociações de paz progrediram ou regrediram depois que entrou no poder o Primeiro Ministro Ariel Sharon?

Jiga: Quando o ex-Primeiro Ministro foi votado, Ehud Barak, havia muito mais esperança de um acordo de paz na Palestina. Seu partido é de esquerda moderada e realmente as conversações com os Palestinos eram mais frequentes que agora. Mas os bombardeios suicidas e a violência não parou. Basicamente se pode dizer que após o assassinato de Rabin não houve nenhuma mudança na situação. Talvez os governos conversassem mais mas a violência não acabou em ambos os lados. Rabin (que foi assassinado por um extremista religioso israelense!) era o único que podia mudar alguma coisa.

Bits: Jiga, você serviu o exército? Você concorda que uma mulher deva servir o exército?

Jiga: Servir o exército não é uma coisa boa em nenhuma circunstância. De qualquer forma se existe necessidade de haver um exército fico feliz que as mulheres o façam também. Mulheres são iguais aos homens.

Bits: Você pode nos contar como os jovens de Israel reagem à situação de conflito com a Palestina? Eles aprovam a guerra ou existe um movimento de paz entre os jovens e os estudantes?


Jiga: Ninguém aprova a guerra! Ninguém quer morrer ou quer ver seus entes queridos morrerem. Tenho certeza de que esta é a mesma posição dos palestinos. Existe um pequeno grupo na Palestina que defende a morte em nome da religião e eu entendo isso também. Eles são ensinados a entender que esta é a coisa certa desde pequenos. Sob sua ótica estão fazendo algo bom, protegendo seu país e sua religião quando estão praticando bombardeios suicidas. No entanto tenho certeza de que esta é uma minoria.

Vou contar uma coisa. Conheci através da Internet uma moça palestina que também vive na Alemanha agora. Nos falamos regularmente pelo telefone sobre cosméticos, amores, música e a vida em geral. Ela é minha amiga. Estávamos falando agora mesmo sobre a violência no Oriente Médio e como piorou e nós simplesmente não podemos entender qual o motivo de tanto conflito. Porque? Não seria melhor que existissem dois países maravilhosos que vivessem bem como vizinhos, tendo relações economicas e turísticas em comum, com grandes raves na fronteira entre israenses e palestinos? Eu seria a primeira a tocar lá!

Sei que a maioria dos israelenses acha o mesmo e provavelmente muitos dos jovens palestinos. Mas existe um círculo vicioso em volta da situação. Palestinos bombardeiam a si próprios nas rua de Israel, matando cidadãos israelenses. O exército israelense bombardeira cidades palestinas, matando crianças pequenas. Ambos os lados estão sofrendo o que leva ao medo e ao ódio. E ambos os governos "manipulam" este ódio como querem.

Bits: Você acha que os Estados Unidos deveriam estar envolvidos neste conflito?

Jiga: Definitivamente não! Os americanos na verdade estão piorando a situação. O envolvimento deles está perturbando a nossa habilidade e a dos palestinos de usarmos nossos próprios caminhos para construir a ponte para a paz. A paz não virá de fora e sim de dentro. A confiança será construida quando alguém der o primeiro passo para quebrar este círculo vicioso. Portanto faço votos que os Estados Unidos parem de interferir.

Gostaria de adicionar um outro ponto de vista pessoal. Quando se vê na TV matérias sobre guerras, não necessariamente entre Israel e Palestina, o que se vê é o sexo masculino. Qual é o sexo dos líderes? E o dos guerreiros? Sempre o sexo masculino. Não sou exatamente uma feminista, mas acredito que os homens e toda sua "testosterona" são responsáveis por toda essa violência. Homens que pensam: "preciso proteger minha terra, preciso proteger minha religião - vamos matar gente". É exatamente o mesmo mecanismo que acontece quando homens brigam num bar. Talvez existam também mulheres brigando em bares, mas não tantas.

Se existissem mais mulheres nos governos, as coisas seriam diferentes. Se Yasser Arafat e Ariel Sharon fossem mulheres não estariam jogando este estúpido "jogo de homens" - "você atirou em mim antes - agora atiro em você". Mulheres geram crianças, dão vida. Não podem levar a vida facilmente como os homens. Portanto um Arafat-mulher e um Sharon-mulher sentariam e conversariam sobre bebês! Seria uma ótima fórmula para a paz.

Bits: Porque você acha que existe uma cena trance tão forte em Israel?


Jiga: É interessante que a cena trance de Israel cresceu muito desde que a violência acelerou. Os jovens querem esquecer, dançar e se sentir bem. Portanto saem para dançar e se livrar da tensão numa festa trance. Não sei como está desenvolvida a cena eletrônica do lado palestino, acho que não existe muita coisa, provavelmente porque eles não estejam muito expostos a outras culturas do mundo exterior ao deles.

Assim que tiverem seu próprio país e todos nós vivermos em paz, tenho certeza de que serão "infectados" pelo vírus eletrônico e talvez meu sonho se torne realidade, o de tocar na Palestina, mostrando nossos valores: paz, amor, unidade e respeito!

 

 
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