A
festa Temp não tem data nem local definidos e acontece
ao som de muito hardcore
Você
anda preocupado(a) com o futuro da música e da cena
eletrônica? Esse negócio de mega-evento com
milhares de dólares rolando e muita propaganda clubber
na mídia já deu no saco? Bem, nem tudo é
corporação e mega-empreendimentos no mundo da
música eletrônica. Tem gente, e pelo mundo todo,
que está se mexendo sem a preocupação
básica de aproveitar a onda marqueteira do look
DJ e tentando salvar o caráter genuíno
das primeiras festas de música eletrônica e o
conceito anti-show business da discotecagem.
É um movimento musical e ao mesmo político
que acontece pelo mundo há alguns anos e que agora
começa a aparecer no Brasil. Musicalmente consiste
em som eletrônico de batidas muito rápidas,
pesadas e sujas. Politicamente acompanha os protestos
anti-globalização, com muito ativismo em
manifestações genuínas de contracultura,
com referências por exemplo às teorias TAZ
- Temporary Autonomous Zone - de Hakim Bey (disponível
no Brasil pela Ed. Conrad). Esse movimento tem se manifestado
na Europa, na Ásia e na América do Norte.
O
livro de Hakim Bey une teorias de estudo da pirataria
de séculos passados e a era digital do século
XXI
Seria
uma cena pós-digital? Ou talvez a verdadeira
tradução da era digital? Nos últimos
dez anos se viu o mundo passar por uma das maiores transformações
da história. A internet, que está mudando
todo o conceito de comunicação, publicidade
e distribuição de produtos e idéias no
mundo, tornou-se uma realidade e, no campo musical, permite
aos novos músicos a formação de uma
rede internacional ampla de artistas, bandas, DJs, produtores,
distribuidores, gravadoras e selos, além de muita informação
sobre isto tudo em zines, listas de discussão e principalmente
na troca de arquivos musicais.
Mas a maior divulgação desta rede de música
digital acontece nas pistas de dança, nas festas.
Festas como as organizadas pelo anárquico Spiral
Tribe, nos anos 90, reivindicando uma utopia social
dentro da Inglaterra ultra-conservadora e que mostraram
o re-surgimento de ideologias hipppies ao mesmo tempo que
outras, anárquicas e neo-punks. Uma determinação
do governo britânico proibiu estes eventos, que eram
gratuitos e gigantescos no que diz respeito ao público
que frequentava. E o movimento acabou se espalhando pela
Europa, migrando para países como Holanda, Alemanha,
França, Espanha, Portugal, Itália e Áustria.
O som evoluiu e se radicalizou. O techno acid-core
do início ramificou-se e misturou-se com o hard-techno
e o hardcore.
No flyer da Fuck Parade 2002: "Festeje por seu direito
de brigar. Brigue por seu direito de festejar"
E
em Berlim, aonde acontece o maior evento de música
eletrônica do mundo, a Love Parade, acontece
também um evento antagônico: a Fuck Parade
- http://www.fuckparade.de/, uma resposta ao corporativismo
que tomou conta da outrora livre parada berlinense.
Na Fuck Parade, que tem reunido uma multidão
enorme que se articula através da internet, o público
tem uma atitude mais engajada e ativista. Enquanto
a Love Parade acontece na parte ex-ocidental da cidade, desaguando
no parque Tiergarten, a Fuck Parade acontece na Alexanderplatz,
no bairro Mitte, rergião central da ex-Berlim oriental,
hoje uma área repleta de novos restaurantes, bares,
clubes e lojas modernas. Eventos como a Fuck Parade têm
acontecido também na Bélgica, França,
Espanha, Itália, Áustria, República Tcheca,
Suíça, Singapura, Canadá e EUA.
O grupo Widerstand - www.widerstand.org - com base
na Áustria, reúne artistas do mundo inteiro
e disponibiliza um calendário completo com festas que
entram em sintonia com este espírito e que acontecem
por todo o mundo.
A
Fuck Parade de Berlim, como todo o movimento, tenta resgatar
o caráter libertário das primeiras raves
e free parties
As
free-parties européias e as paradas como
a Fuck Parade, estão em sintonia com as teorias
de Hakin Bey sobre TAZ. Esses eventos formam
comunidades temporárias, resolutamente autônomas
e anti-capitalistas, onde a participação
de cada pessoa torna o ato revolucionário por excelência.
O lado político das raves, das squat-parties
londrinas e das paradas de música eletrônica,
em princípio, e antes de serem vampirizadas pelo
marketing e pela publicidade mundial, não se manifesta
através de um discurso, muito menos em programas partidários.
Não se baseia em hierarquias e muito menos através
de reivindicações efetivas. O lado político
das festas se manifesta na forma em que elas acontecem: na
falta de autoridade, na igualdade e na individualidade
de todos em frente às caixas de som, na rejeição
a um sistema de relações humanas baseadas em
dinheiro e na própria estética das festas.
Brasileiros engajados? A cena eletrônica no Brasil já teve
muitos destes impulsos, apesar de um entusiasmonão tanto politizado, já que nossa história
ainda engatinha no quesito cidadania. Mas o momento
atual é de total desmobilização e desunião,
de banalização do movimento e de invasão
total das corporações.
Porém, nem tudo está perdido... Um grupo
de DJs de São Paulo pretende mostrar que ainda há
esperança, mesmo que a estética seja apocalíptica...
É o pessoal que produz a Temp - Temporary Electronic
Musik Party - uma criação completamente
nacional, com base em todo este conceito. A festa já
traz no seu nome a dica: surgindo sempre em lugares diferentes
da cidade e sem datas fixas, o evento mistura a música
eletrônica extrema (digital hardcore, gabba, breakcore,
hardcore, noise e afins) com intervenções
visuais multimídia (são convidados artistas
para apresentarem trabalhos diversos associados ao conceito).