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Tom Tykwer conversa com o Bitsmag sobre a carreira, música eletrônica e Paraíso

Tom Tykwer apresentou pessolamente seu novo filme, Paraíso, em sessão de gala no Odeon BR, durante o Festival do Rio BR 2002

Tom Tykwer, que teve todos seus filmes muito bem recebidos em edições anteriorers do Festival do Rio BR, veio ao Brasil para esta edição do evento. O momento coincide com o lançamento internacional de seu último filme, Paraíso (Heaven), que teve sua premiére brasileira durante o festival. Tykwer lidera uma boa fase do cinema alemão, não só pelo sucesso de seus filmes, Wintersleepers, Corra, Lola, corra e o novíssimo Paraíso, sua primeira produção internacional, mas também pelo papel de fábrica e laboratório do novo cinema alemão da produtora X-Film Creative Pool, da qual Tom Tykwer é um dos mentores. Paraíso, que estréia em circuito nacional no próximo dia 18 de outubro, é a filmagem de um projeto inacabado de Krystof Kieslovski, comprado pela Miramax, que escolheu Tom Tykwer para dirigí-lo. No elenco estão Cate Blanchett, provavelmente uma das melhores atrizes do cinema atual, e Giovanni Ribisi, da nova safra americana, que pode ser visto em Suburbia, de Richard Linklater. Os dois dão um show de interpretação no filme que tem como locação a cidade de Turim, na Itália.

Tom Tykwer concedeu uma entrevista exclusiva ao Bitsmag e disse adorar música eletrônica e não estar deslumbrado com o sucesso de seus filmes, apesar de adorar saber que está se conectando com pessoas ao redor do mundo.

Leia e/ou ouça a entrevista do Bitsmag com Tom Tykwer, que aconteceu em tarde ensolarada carioca, à beira da piscina do Copacabana Palace.

Bitmag: Sobre Paraíso: o que fez você se arriscar, pegando um projeto
de Kieslowski? É um risco não? Um desafio…

Tom Tykwer na piscina do Copacabana PalaceTom Tykwer: Tenho que admitir que no começo eu não queria fazer, com um nome desse envolvido eu só poderia falhar. Porque deveria eu mexer com o legado de um grande nome do cinema? Mas depois eu li o roteiro, e quando eu li ficou tão óbvio que aquele poderia ser um material que eu mesmo teria escrito… Tinha algo de familiar prá mim, principalmente o assunto, parece muito do meu universo. Então eu não fiquei assustado e todos meus medos se dissiparam.

Bitmag: Paraíso e Corra, Lola, corra têm ritmo diferente, as histórias são bem diferentes, claro…

Tom Tykwer: Mas o desenrolar do roteiro (dos dois filmes) na verdade é muito similar. A grande diferença entre os dois filmes é o emprego do som. Paraíso é bem silencioso, um experimento com o silêncio, enquanto Corra, Lola, corra é bem barulhento o tempo inteiro, muito barulhento na verdade. Essa, para mim é a maior diferença (o emprego do som).

Se você notar o desenvolvimento do roteiro Paraíso é bem rápido: você tem um início bem dramático e uma ação logo sucede a outra. Ela (Philippa, a personagem de Cate Blanchett) é presa, tem o interrogatório, ele (Filipo, personagem de Giovanni Ribisi) se apaixona por ela, eles escapam. É tudo muito rápido, mas não parece um filme de ação porque é um filme movido pela energia dos dois protagonistas, que não são personagens de filme de ação.

Eles se hipnotizam mutuamente. Eu queria que o filme fosse uma sessão de hipnose, então a platéia e o filme estão se hipnotizando.

Portanto Corra, Lola, corra e Paraíso parecem diferentes, mas de uma certa forma estruturalmente são muito similares. Nos dois filmes, nos primeiros cinco minutos, um dos personagens se mete em uma enrascada e então o outro personagem principal, que é então apresentado, decide contra todos os obstáculos, contra qualquer pensamento racional e por pura paixão, salvar aquela alma perdida, aquela pessoa. É isso que acontece em Corra, Lola, corra e em Paraíso.

Bitmag: Você gosta de música techno… A trilha sonora de Corra, Lola, corra é toda techno…

Tom Tykwer: Não é realmente techno. Eu pessoalmente gosto de música eletrônica, eu gosto de todos os tipos de música, como você pode perceber em meus filmes, mas não fico preso a um estilo. Eu gosto muito de música eletrônica porque representa bem os tempos atuais. Acho que existe música muito boa no mundo hoje em dia e a música eletrônica está num estágio muito bom atualmente.  

Giovanni Ribisi e Cate Blanchett, em "Paraíso"Bitmag: O que o levou a escolher Giovanni Ribisi (em Paraíso)?

Tom Tykwer: Ele é perfeito para o papel, não é? Mas concordo que ele é uma surpresa. Porque ninguém nunca o viu daquela maneira antes. Eu estava procurando uma pessoa, atores, que tivessem inocência e ao mesmo tempo fossem verdadeiros, já que o personagem é muito determinado, tem muita clareza e até sabedoria. É algo muito difícil de achar esse tipo de combinação porque por um lado você acha rapazes bonitos e jovens que atuam nas comédias adolescentes ou então você tem atores interessantes, mas já adultos. Eu precisava de alguém que estivesse neste limite: um menino, mas também um homem. E Giovanni tem tudo isso. Ele é exatamente o que procurávamos. Assim que o conheci eu imediatamente soube que era ele. E também o caráter obsessivo de Giovanni, em termos de conseguir um papel… A maneira que ele me convenceu a dar a ele o papel de Filipo, foi muito similar à maneira pela qual Filipo convence Philippa a seguí-lo e então eu me senti como Philippa, sendo seduzida por Filipo, quando conheci Giovanni.

Bitmag: Você desenvolveu seu trabalho como cineasta principalmente no coletivo Movimiento em Berlim e depois em sua propria produtora, a X-Filme Creative Pool…Existe uma nova onda de filmes alemães, após a era Win Wenders?

Cena de "A princesa e o guerreiro"Tom Tykwer: A X-Film está tentando criar uma identidade e elegendo um ideal específico de cinematografia. Um ponto em comum dos filmes da X-Film, não que sejam similares, mas eles têm a mesma energia, tentando fazer algo único e específico, mas sem esquecer que é cinema e que se quer atingir o público e comunicar. Na Alemanha hoje não há exatamente uma nova onda acontecendo em termos de conteúdo, fora da X-Film, mas em geral o cinema alemão tem se desenvolvido muito bem, sendo muito mais profissional, os filmes são mais bonitos (em termos de fotografia e som). Os requisitos para uma produção alemã hoje são de alto nível.

Bitmag: Como foi que o sucesso de Corra, Lola, corra mudou sua carreira?

"Corra, Lola, corra"Tom Tykwer: Eu acho que apenas abriu mais portas. É mais fácil conseguir financiamento. Basicamente não muda tanto se você tem sucesso num filme, porque o que não se deve fazer é tentar extender esse sucesso, se deve procurar o novo projeto que seja bem convincente prá você, que te faça sentir confortável, que você sente que aquilo é o que você quer falar no seu próximo projeto. Não se deve ficar pensando no que as pessoas esperam que você fale. Isso é o que tenho feito. É ótimo ter um sucesso, afinal sucesso é sempre bom. E quer dizer também que as pessoas estão se conectando com o que você faz, e é essa a meta. E nesse ponto eu considero todos os meus filmes bem sucedidos, porque todos foram mostrados em várias partes do mundo, todos estão se conectando com milhões de pessoas em várias cidades. O que me importa não tem tanto a ver com bilheteria, mas tem mais a ver com a presença de um filme no mundo. Eu agora sei que muita gente conhecia Wintersleepers (segundo filme de Tom Tykwer, de 1997) tanto quanto Corra, Lola, corra e A Princesa e o guerreiro e realmente gostavam. Recebo muito contato por e-mail, muitas reações pela Internet. Isso é formidável vindo do Japão, do Brasil, do México, da Austrália…
Bitmag:
Esses filmes todos foram muito bem sucedidos aqui no Brasil…
Tom Tykwer:
E saber disso é maravilhoso…

 

Beth Ferreira

 
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