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Nego Moçambique: "Vagarosamente está acontecendo um movimento de renovação e uma espécie de antropofagia que parecia ter sumido da música brasileira em geral"

Nego Moçambique no palco Sonar Pub - Sonar, Barcelona, Junho de 2004 (foto: Fábio Mergulhão)

Um dos artistas nacionais que incorpora melhor as sonoridades de raízes negras, ao mesmo tempo unindo influências diversas, ginga e boa produção, Nego Moçambique e seu live PA tem sido bem comentado pela comunidade de música eletrônica brasileira a mais de dois anos. Falado e cultuado e suas poucas apresentações em festas no Brasil são sempre concorridas, onde ele mostra não só o balanço de suas músicas, como também sua presença fortíssima, onde ele toca e dança fazendo com que o público dance e vibre junto com ele. Este ano a gravadora Segundo Mundo lançou o primeiro CD de Nego Moçambique que une house music a influências do funk americano, da disco music, do hip hop e demais sonoridades da black music mundial.

Nego Moçambique é o nome artístico de Marcelo de Jesus que mora em Brasília, capital do país. Marcelo conversou com o Bits dias antes de embarcar para o festival de música eletrônica Sonar que aconteceu mais uma vez em Barcelona, na Espanha, em junho passado e onde tocaram também os DJs brasileiros Marlboro e Patife. Marcelo se apresentou na programação Sonar Pub mostrando seu som black globalizado mas com “sotaque” brasileiro, como ele mesmo gosta de definir.

Esta entrevista é na verdade uma aula de black music e uma reflexão sobre a música brasileira atual, de um músico contemporâneo de cabeça aberta, que tem a visão exata do que é a música brasileira hoje e do papel da música eletrônica no enriquecimento de uma sonoridade nacional. Conversamos também sobre a discussão recente em torno do funk carioca, sobre preconceito e sobre o valor deste gênero como movimento social e como matriz musical.

Bitsmag: Me fala dos primórdios, como vc começou a fazer música? Vc começou discotecando?

Nego Moçambique: Eu nunca fui DJ. Nunca tive interesse. Mexo com música desde criança, estudei na escola de música, tive banda. Aqui em Brasília todo mundo tinha banda no Plano Piloto. Então meu interesse foi sempre fazer música. Nunca fui um grande instrumentista, estudei violoncelo, estudei outras coisas, mas meu interesse foi sempre compor, juntar as peças, fazer arranjos, etc.

Meu interesse por música eletrônica começou porque eu vi ali a possibilidade de fundir milhões de coisas ao mesmo tempo. Ela pode abarcar qualquer tipo de som e referência que você possa “roubar” de qualquer lugar, por causa dos samples. Você tem uma banda que você toca sozinho, porque você tem que fazer todos os arranjos, você faz a bateria, o baixo, a guitarra, os teclados e a voz. Então essa sensação de ter uma banda, de ser o cara que toca todos os instrumentos daquela banda, eu acho legal, apesar de sentir falta desse formato antigo de banda. E teve o encantamento inicial de poder fazer música para dançar. Eu gostava de sair pra dançar quando conheci essa música efetiva pra pista de dança. E também da ligação com a black music. A gente ouvia o house que vinha de Chicago e de Detroit, isso tudo em meados dos anos 90, quando se ouvia muito breakbeat. Eu sempre fui um apaixonado por break dance, por essa cultura de rua, essa coisa do hip hop que é música eletrônica também.

O que você acha do funk carioca e a recente valorização do gênero?

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Bitsmag: Essa conexão com o movimento break dance, o grafiti e os primórdios da cultura hip hop. Existe uma cena assim em Brasília?

Nego Moçambique: Eu não tenho nada a ver com o movimento hip hop e não sou dançarino de break como tem sido divulgado. Sou apenas um admirador. Tive uma namorada que dançava e fui eu que apresentei essa cena pra ela. Eu já fiz balet, fiz kung-fu e outras técnicas que ajudam você a dominar o corpo. Mas eu danço pra mim e eu nunca faria uma música que eu não pudesse dançar: se eu não tô acreditando que eu possa vir a dançar aquilo então não teria motivo nenhum. Eu danço naturalmente, nada ensaiado mas o pessoal acha que isso faz parte do show. Eu acho que você não pode falar tudo que você quer pras pessoas só com uma caixinha eletrônica mandando uns beats, certo? Acho que você fala com o corpo, fala com a voz, você fala olhando para as pessoas e respondendo. Então a música é o que domina a situação. Eu acho que tem toda uma freqüência energética e espiritual que passa nesse momento e que se manifesta de diversas maneiras. Ou dançando, ou cantando. As músicas novas todas têm vocal e letras.

Bitsmag: Você está com uma banda agora?

Nego Moçambique:
Não, continuo sozinho. O que eu tô fazendo agora são composições mais fechadas. Porque em geral em música eletrônica acontece muito de você fazer levadas pra pista de dança. Então as músicas novas estão mas definidas, com começo, meio e fim, com voz e letras, pra fazer um sentido maior enquanto composição. Antes as minhas músicas eram somente instrumentais. São músicas para as pessoas escutarem não somente na pista de dança, mas pra escutar em casa também. Uma música popular mesmo.

Bitsmag: Da tua experiência anterior com música clássica e o teu trabalho atual com computadores e sintetizadores, como você vê esse casamento?

Nego Moçambique: Eu não consigo me livrar muito. Nessa coisa de música eletrônica, as pessoas conseguem ser super experimentais. O techno, por exemplo, é muito inovador nesse sentido de utilizar os timbres eletrônicos, casar todos eles e criar aquela levada “musculosa”. Eu nunca consigo me livrar de pensar que estou com uma banda. Ficou um lado meu muito tradicional. Eu sempre penso na melodia, no refrão. Mesmo quando as músicas são só instrumentais sempre tem essa coisa. A música sempre tem um ápice melódico, nunca é um ápice tipo um timbre que vai entrar. Nunca é assim. É sempre pela música, pela melodia. Sempre alguma coisa que as pessoas possam cantar ou assoviar. Então acho que fiquei preso a isso, essas características mais tradicionais de composição. Não é nada que me incomode.

Bitsmag: Você tem influência da banda Black Rio?

Nego Moçambique:
No CD eu usei samples da banda Black Rio. Eu tenho influência de toda música negra do mundo. De dancehall a afro beats. De funk americano, de funk africano, de funk soul e funk brasileiro, que eu adoro também. Então eu tenho influência de tudo isso. Não é especificamente da banda Black Rio. Tá faltando hoje um grupo como a Black Rio. Tem bandas que eu acho interesantes, como Los Hermanos, mas não posso utilizá-los como influência. É mais no aspecto das letras, que acho maravilhosas. Falta no Brasil neste momento uma banda de swing para as pessoas dançarem. Tem trabalhos bons, como o do Seu Jorge, no Rio. Ele tem uma raiz no samba rock. Tem o Funk Como Le Gusta, em São Paulo, mas acho essa uma banda de músicos, não acho que sejam uma banda de baile que faça as pessoas realmente dançarem. Mas o espaço que a banda Black Rio deixou não foi preenchido. Apesar deles também terem uma coisa instrumental muito forte, de músicos, de improvisar.

Eu acho que estão acontecendo coisas fantásticas em termos de música popular brasileira. Acho Los Hermanos a melhor banda atual. Gosto também do Sonic Júnior, da banda Zé Maria do Espírito Santo. Vagarosamente está acontecendo um movimento de renovação e uma espécie de “antropofagia” que parecia ter sumido da música brasileira em geral.

O primeiro CD de Nego Moçambique saiu este ano pela gravadora Segundo Mundo e contém seu maior hit: Gil para B-Boys
Bitsmag: Antropofagia na música brasileira ou na música eletrônica?

Nego Moçambique: Na música brasileira em geral. A gente tá começando a chegar num consenso: (a música brasileira) é uma música realmente feita aqui mas que não está fora do que está sendo feito no resto do mundo, esse mundo globalizado. Porque tem no Brasil um pouco do conceito “ah, tem de fazer música em português, senão ela nunca vai ser reconhecida como música brasileira.” Por exemplo: é como se uma banda de hardcore nunca pudesse ser uma banda de música brasileira. Parece que estamos chegando numa fase em que este tipo de paradigma vai acabar. Eu vejo no Los Hermanos um exemplo claro disso. Esse último disco deles não se pode chamar de rock, não sei do que chamar. Vc tem lá no fundo uma sonoridade de rock, mas eu diria que aquilo é música brasileira. No entanto é rock também, então como é que a gente fica?

Bitsmag: Essas barreiras estão caindo, inclusive na música eletrônica...

Nego Moçambique: Você vai na Argentina e vê bandas que misturam letras em inglês e espanhol. Parece que lá é mais “mundo” do que aqui. As pessoas não estão se importando muito se os caras estão cantando em espanhol, em inglês, se tem uma exigência de que seja tango para ser música argentina. Isso parece ser uma coisa bem do Brasil. De tentar valorizar o que é local com um comportamento ufanista. E a grande onda do Brasil sempre foi a antropofagia, né?

Bitsmag: Antropofagia em que sentido?

Nego Moçambique: Pegar e cuspir aquilo de volta, devorar e transformar em outra coisa. O que é o afro beat na África, a música do Fela Kuti? É a música negra africana que vai pro Estados Unidos, vira funk e soul e depois retorna pra África. Ela é regurgitada uma terceira vez. Os africanos devolvem a mesma música que eles geraram num terceiro formato que os americanos nunca iam conseguir fazer. Mais antropofágico que isso é impossível. A onda do Brasil se parece mais com isso. Eu quando tô fazendo música me sinto um pouco dentro dessa onda aí.

Bitsmag: O que foi preparado pra mostrar no Sonar?

Nego Moçambique: Eu tenho um repertório novo que tem a ver com essa coisa de ter letra e voz. De ter batidas completamente diferentes umas das outras, tudo dentro da escola da black music. Não obedeço a um bpm rígido a noite toda, com mixagem certinha a noite toda. Não tô preocupado com isso. Nunca fui à Europa. Os únicos países que conheço fora do Brasil são a Venezuela e a Argentina. Então quero ver qual vai ser a reação das pessoas à minha música, porque não sei o que elas esperam. Quando eu mesmo ouço as minhas músicas acho que não se parece com nada daquelas produções. Não se parece com nada da produção européia de música eletrônica e também não se parece com as produções que vêm dos Estados Unidos. Não se parece com as coisas de hip hop que estão sendo feitas no mundo e isso não quer dizer que eu seja uma pessoa original ou criativa, muito pelo contrário. Eu tento me guiar pela intuição e quem se guia pela intuição sempre vai pelo caminho do óbvio. Eu não tento ser criativo. Eu procuro fazer coisas divertidas, que façam as pessoas dançarem. E quando eu acho que estou operando nessa faixa parece que a música foi feita em outro lugar. É nesse momento que entra a coisa da intuição brasileira. Nessa hora é que toda essa herança, esse movimento, lá no subconsciente, aí vem.

Eu acredito que tem uma espécie de “sotaque” que os outros não têm, mesmo a minha música não sendo samba, ou um ritmo folclórico. Mesmo que eu não esteja misturando ritmos regionais com uma batida eletrônica, como por exemplo um afoxé com batida de house, um forró com batida de drum’n bass. Eu realmente não faço isso e nem estou interessado nisso. Eu acredito que todas essas batidas estão aqui dentro de mim e que de alguma maneira elas vão se misturando ao que está acontecendo. Eu nunca pensei em colocar um sampler (de ritmo folclórico) e botar uma bateria de não sei o quê. Eu acho essa fórmula ótima mas acredito que só vai dar certo com quem realmente sente isso como intuição. Eu aposto no fato de que a minha música tem um "sotaque" (brasileiro), mas não sei o que esperar do público na Europa. Porque a impressão que me dá é que no Primeiro Mundo eles esperam que a gente aja de acordo com o que o Primeiro Mundo acha que a gente aqui deva agir.

Bitsmag: É bem paternalista mesmo...

Nego Moçambique:
É... Tipo: “Pode tratar de agir como uma espécie de primitivo...”

Bitsmag: Mas é assim mesmo, só acho que no Sonar não...

Nego Moçambique: Eu tento chegar lá com menos preconceito que eles mas a sensação que eu tenho, que eu carrego, é essa: na hora que eu chegar lá todo mundo vai ficar esperando que eu comece a sambar e que eu misture samba com uma batidinha de não sei o quê, ou qualquer coisa do tipo. Uma vez aquela música Gil para B-Boys, que tem no CD... Um DJ de Los Angeles me mandou um e-mail porque ele tinha colocado a música na programação de uma Web Radio e me disse. “Pôxa, essa música sua é incrível. Eu toco ela aqui em diversos lugares. Eu queria um vinyl. Ela dá super certo”. Eu não diria que essa minha música seja samba misturado com qualquer coisa. Pra mim foi uma coisa animadora na época porque eu vi que se pode fazer o que quiser, tem espaço.

Vai rolar esse show no Sonar e também um no Favela Chic em Paris. Imagina um lugar chamado Favela Chic? Nossa, nem sei o que dizer! Parece assim: “Aqui é um Museu do Terceiro Mundo. Veja como nós os macacos comedores de banana fazemos esta música alegre e tropical pra vocês.” O que eu sei é o seguinte: nada do que eu faço se parece com o que eu estou acostumado a ver. Com o que Layo & Buschwacka vêm tocar aqui ou com o que todos esses DJs aí do techouse, do house, todos esses mestres que o pessoal puxa tanto o saco aqui no Brasil... Nada do que eu faço tem a ver com isso. Quando eu penso na música que eu faço eu penso no Brasil. Eu penso nas pessoas que estão andando na rua. (...). Quando eu toco aqui na minha rua com a janela aberta a vizinha, que é uma velhinha, tem senhoras aqui do lado, elas vêm comentar com a minha mãe que gostam, que acham bonita a minha música. Eu tô fazendo música pra essas pessoas. Tem letras das músicas que são em espanhol, francês, português e inglês, na mesma música, no set novo. Tem letras em várias línguas porque é como se eu fosse uma espécie de semi analfabeto em várias línguas, incluindo o português então tá tudo ali misturado. Não sei como o pessoal lá na Europa vai reagir a isso também. Eu não tô pensando nisso na hora de fazer, apesar de que agora estou gostando mais de fazer música com letras em português, não por uma razão nacionalista e sim porque é a nossa língua né? Você se comunica melhor e acabou...

Bitsmag: Já que estamos falando em preconceito e estamos vivendo uma situação engraçada que é o “hype” do funk carioca... O Marlboro começou a tocar em clubes da Zona Sul, a dividir picapes com Maurício Lopes e uma legião de pessoas modernas agora só quer saber de funk carioca. O que você acha disso?

Nego Moçambique: Falando especificamente do Marlboro. Não tem critério pra comparação da maioria dos DJs brasileiros com o Marlboro. Todos esses caras aí não têm nem técnica pra você comparar com Marlboro. Ele é um cara que, aonde ele chegar, tem inclusive naquele livro O Mundo Funk Carioca, do Hermano Vianna, que saiu a 10 mil anos atrás. O Marlboro tem um domínio absoluto. Esses caras (do funk) se quiserem fazer todo mundo brigar num baile eles vão fazer, é só tocar a música certa. Se eles quiserem apaziguar na mesma hora eles sabem como fazer... Isso é muito diferente do que o pessoal da música eletrônica faz, é muito diferente. E, diga-se de passagem: eu tô muito longe disso, sequer sou DJ, eu só faço minhas músicas.

Tem uma coisa que é essa batida que se fez no Rio: devoraram miami bass e devoraram a música black mesmo, porque os primeiros discos da Furacão 2000 têm a ver com isso, não tem nada a ver com miami. Então devoraram tudo isso e nos devolveram o funk carioca, que é essa batida forte que parece um miami misturado com maculelê, sei lá o que é aquilo! Essa batida pra mim é do maculelê, aquela coisa da capoeira que neguinho fica brigando com facão. Então é evidente que isso no Brasil funciona, tá na cara, ou não teria baile todo domingo, a torto e a direito e pra tudo quanto é lado.

Bitsmag: E teve também uma revisitação do miami bass pelo electro...

Nego Moçambique: Eu acho engraçado porque teve esse negócio do electro. Teve esse quê do electro de miami bass, dessa sensualidade fake européia, Peaches, etc... Acho essa coisa toda falsa, de gente que é completamente frígida e que começa a fazer as coisas nem sei te dizer porque. Porque eu não sou daquela cultura, não tenho a mínima idéia. É evidente que pra esse povo é completamente apaixonante uma coisa que seja feita com um mínimo de equipamento, um mínimo de recurso, mas com todo o peso e a sensualidade de uma música que vem da África, que é totalmente sincopada. Não desmerecendo Bach e Mozart... Mas é completamente diferente. Imagina como aquilo deve soar no ouvido daquele pessoal. Talvez seja um pouco como soa o dancehall pra eles, que é mais ou menos o mesmo assunto. É totalmente diferente do funk carioca, mas é o mesmo assunto.

Bitsmag: No entanto o funk carioca ainda tá no morro e agora ele foi “descoberto” por uma galera moderna, da classe média. Mas tenho participado de algumas discussões na internet, de gente que cultua a música popular brasileira, e a maioria dessas pessoas ainda odeia o funk...

Nego Moçambique:
Mas é lógico que odeia. O funk é a negação da fórmula básica da música brasileira. Aquela harmonia complexa, aquela coisa Djavan, João Gilberto, João Bosco, Chico Buarque... Tudo isso é muito complexo. Tem aquele lirismo, aquela coisa que os meninos dos Los Hermanos têm. Isso é música pra classe média.

Mas, no final das contas, se você quer saber mesmo o que eu acho... Eu acho super positivo. O que eu posso fazer? O Marlboro é um cara que trabalha a quantos anos? O livro do Hermano foi publicado na década de 80 e nós estamos em 2004. O Marlboro tem mais é que ser reconhecido. Toda essa coisa do funk tem muito a ver com o preconceito da classe média contra os palavrões nas letras e contra falar de sexo. Eu particularmente não gosto disso. Eu não faria, pois acho que a gente pode ir por outro lado. Mas tem uma coisa pra mim muito mais forte de preconceito contra o funk como música de pobre, do que contra a qualidade da música. Porque música com palavrão etemas horríveis a classe média produz a anos, como os Mamonas Assassinas ou os Raimundos. Quando vem da classe média é visto como “atitude transgressora” e quando vem do pobre é música de “um monte de analfabeto, ignorantes”, etc. E são mesmo. E a classe média ao invés de reclamar disso eles deviam era se tocar: “Bom, e o que estamos fazendo em relação a estas pessoas? Se é que tô vendo tanto talento musical e eles só falam de sexo, sexo, sexo?”

Então eu acho que tem mil posturas equivocadas e acho a discussão excelente pra gente ver o que tem de errado. Porque essa bandeira contra o funk carioca? A classe média que é contra vai botar o quê no lugar do funk carioca? Porque vai ter de mostrar muita competência pra fazer o povo se mexer daquele jeito que o funk faz. O povo não quer saber de papo furado: o povo sai todo domingo pra dançar. Então acho essa discussão longa, enorme, mas passa muito pelo preconceito. Preconceito dos músicos também... O Brasil tem ainda a cabeça muito fechada em relação a música.

Bitsmag: Preconceito que também sofre a música eletrônica por parte dos músicos mais tradicionais...

Nego Moçambique: Até hoje no Brasil você tem que provar que música eletrônica é música. O que eu vou falar sobre isso? Até hoje quem faz música eletrônica no Brasil tem que provar que é músico. Tem os produtores, mas tem o pessoal que toca também. E, independente de qualquer coisa, música pra mim é barulho organizado, são sons organizados. Que tipo de organização vai ter, se é tonal, ou atonal, se é na escala oriental ou na escala ocidental... Pra mim não importa, é som organizado. Portanto falar pra mim que funk carioca não é música ou que música eletrônica não é música, bom, acho até engraçado, é uma visão curta da música. Fora do Brasil ninguém tá se questionando, essa discussão só acontece aqui. Então eu acho que as coisas aqui no Brasil ainda estão muito pra trás em relação às visões da nossa produção cultural e do que poderia ser.

Bitsmag: O que você acha se chegar aí um desses produtores que transformam qualquer coisa em dinheiro e ele fizer uma versão pasteurizada do funk para a classe média? Você acha que o funk pode virar uma coisa igual virou o axé?

Nego Moçambique: Tem um pessoal aí que já fez uma mistura, mas não lembro o nome. Uma música falando do filósofo alemão Nietsche. Isso é uma piada de classe média. A coisa pequena, de curto alcance. Piada pra um grupo seleto, meio que usando o funk mas ao mesmo tempo desdenhando. Eu acho que isso do funk ser pasteurizado já está acontecendo de certa maneira. Quem gosta das sacanagens, das letras com palavrão, etc, é a classe média. Quem adora uma putaria que vem de baixo é a classe média. Então se cria tanta polêmica, se é tão consumido... Quem é que consome Sheila Carvalho? É só o pessoal pobre? Não, a Playboy custa quase 10 reais. Quem é que consome toda essa lixarada aí? Pra quem é feito tudo isso? Eu vejo claramente sempre essa coisa do preconceito. As patricinhas não adoram baile funk?

Bitsmag: Teve um momento, quando o funk estourou aqui no Rio, nos morros, a uns 4 ou 5 anos atrás, que começou a ficar “chique”, digamos assim, ir a um baile funk e também tocava nas rádios e nas casas noturnas mais populares. Depois passou e agora ele está sendo absorvido por uma “inteligentsia” da música pop. Isso tudo acontecendo agora depois dessa onda do electro internacional incorporar o miami bass e as mensagens pornô e também depois que o próprio funk carioca começou a fazer sucesso no exterior...

Nego Moçambique: O funk carioca não é música pra esse pessoal que agora “admira” o funk carioca, mesmo fazendo sucesso, mesmo o Marlboro estourando. É sempre visto como uma coisa engraçada, exótica, tipo: “Olha só que engraçado, olha como os pobres se divertem.” Ao mesmo tempo tem o rap nacional, o hip hop nacional, que é uma música que foi muito pouco “antropofagizada”. Os MCs evoluiram muito, os DJs evoluiram muito, mas a batida continua a mesma que vem do rap de fora. Não aconteceu nada em termos de batida pro rap nacional. Não tá muito diferente do rap de S.Paulo, nem tá diferente do gangsta rap americano. Tem o rap do Rio de Janeiro, com caras incríveis como o MC Marechal, de muito talento. Mas as batidas estão no mesmo lugar. O funk é mais autêntico. Ele apareceu sozinho e está muito mais perto do folclore do que o hip hop nacional que inclusive tem muito preconceito contra o funk. O rap brasileiro tem ainda um longo caminho pela frente, apesar dessa consolidação e desse papel fundamental que ele tem na periferia, coisa que só acontece em país pobre. Na África do Sul, na América Central e no México, nas periferias, o rap tem um papel fundamental, original dessa música e desse movimento artístico que é o hip hop, inclusive aqui no Brasil. Mas em termos de “antropofagia” no rap nacional ainda tem muita coisa pra acontecer.

O funk carioca é uma semente excelente. A discussão que deveria existir em relação ao funk pela classe média não é uma discussão “contra ou a favor”. A discussão devia ser: “O que nós da classe média, pessoas educadas, bem alimentados e formados vamos fazer pra educar essas pessoas?” Pessoas que têm esse talento musical incrível e que são a raiz de tudo que a gente gosta no Brasil, de Chico Buarque, de Noel Rosa, etc. A raiz disso tudo está no morro. E o que a gente vai fazer pra esse pessoal ficar letrado e poder expor essas raízes musicais de uma maneira que não seja tão ofensiva pra nossos ouvidos acadêmicos e bem formados e bem alimentados? Eu acho que é essa a verdadeira discussão em torno do funk carioca, a discussão da diferença social e não a discussão musical.

Beth Ferreira


 
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