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Expoente do novíssimo hip hop carioca, Quinto Andar conversa com o Bitsmag

O hip hop carioca mostra que tem algo mais a acrescentar do que a estética pasteurizada de Marcelo D2 (sim, ele mesmo, aquele que há dois anos fez um showzinho na Daslu, em S.Paulo). O Quinto Andar, cujo nome escolhido pelo coletivo não quer dizer absolutamente nada, é uma das melhores coisas que surgiram na música popular carioca nos últimos tempos. O coletivo é formado por De Leve, 23 anos, de Niterói; Shaw, 21 anos, do Rio; DJ Castro, 27 anos, de Niterói; Bruno Marcus, 29 anos, também de Niterói; Kamau, 27 anos, de S.Paulo;  Tapechu, 22 anos, do Rio;  Matéria Prima, 25 anos, de Belo Horizonte e Lumbriga Tremosa, 26 anos, de S.Paulo.

Capa do primeiro CD do Quinto Andar, lançado como encarte da revista Outracoisa
Era o final do século XX, na virada, e os rapazes do Quinto Andar queriam mostrar um rap diferente, que não caísse no antagonismo do rap atual que fica entre a vertente mais politizada, às vezes contraditória, e a outra totalmente assimilada pelo corporativismo e a juventude consumista, com temas sexistas e valores descartáveis.

Alguns já se conheciam, outros se agregaram até mesmo via internet, impulsionados pelas músicas que rodavam pela rede desde quando começaram a ser compostas pelos primeiros integrantes do coletivo. Em 2002 fizeram um clipe com os amigos da Apavoramento Sound System para a música Eu Rimo na Direita faixa gravada posteriormente pelo De Leve em seu disco solo, Estilo Foda-se, de 2003. Em 2003 o Quinto Andar concorreu na categoria Revelação no Prêmio Hutus, a mais importante premiação dedicada à cultura hip hop no Brasil.

E este ano a Tomba Records, em parceria com a L & C Editora lançaram encartados na revista Outracoisa o primeiro CD do Quinto Andar, Piratão, quem vem com 18 faixas, entre elas o Rap do Calote, a Melô da Propaganda e a Melô do Piratão.

Bitsmag: Como vocês se conheceram e como começaram a trabalhar juntos?

Deleve: Conheci o Castro via um antigo ex-amigo e conheci o Bruno via Castro e conheci o Shawlin na festa Zoeira, na época em que saiu o disco na TRIP. Começamos a trabalhar juntos quando o Castro falou que um amigo dele tava montando um estúdio e que a gente devia ir até lá. Era o Bruno. A partir daí gravamos o que seria um disco do Quinto Andar, mas por desistência de outro integrante que nao está mais entre nós (Deus o tenha), começamos a gravar o meu disco (EP) e assim tudo começou...

Bruno: Eu fui efetivado a pouco tempo, mas acompanho e sou amigo da galera a muito.

Bitsmag: Vocês jogaram suas músicas na internet no início do Quinto Andar. Agora, depois do primeiro disco lançado, como vocês acham que a internet atuou na história da banda? Acham que teria sido diferente sem a web, teriam ganhado mais dinheiro?

Deleve: Duvido muito que estaríamos fazendo musica ainda se nao estivessemos colocado a musica na rede.

Bruno: Se nao houvesse a net e a revolução tecnológica, que viabilizou a classe média 'falida'(que é o nosso caso) de gravar, produzir e divulgar seus discos com qualidade, o Quinto Andar não existiria, seria apenas um óvulo não germinado.

Bitsmag: O que acham de vender downloads de suas músicas ao invés de vender CDs ou de colocar as músicas de graça na web?

Deleve: Eu acho mais interessante colocar de graça na rede e vender o CD a um preço acessivel, porque assim as pessoas baixam suas músicas e "te ajudam" comprando também o CD, o que acontece muito. Sem falar que baixando as músicas as pessoas vão ao show, o que é mais importante. Sem conhecer suas músicas, como que as pessoas vão ao show? É mais difícil.

Bruno: Acho inviável. Se eu posso baixar de graça, porque eu vou pagar? A internet é um territorio livre, o único meio de comunicação realmente livre, por sinal. E espero que continue assim, mesmo sabendo que não vou ganhar dinheiro vendendo disco.

Bitsmag: E na parte do trabalho, vocês têm um esquema de colaboração pela internet. Podiam explicar a mecânica do trabalho de vocês? Essa mecânica funciona até hoje?

Deleve: O que aconteceu foi que a gente conheceu as pessoas (algumas) pela rede, mas não gravamos muito material pra ser evniado pela rede aos outros colegas do Quinto Andar. Preferimos fazer do modo antigo, tentando fazer tudo junto e num mesmo lugar.

Bruno: A gente se comunica, troca alguns arquivos e divulga nosso trabalho, nada demais. Até hoje.

Bitsmag: Em Piratão vcs têm um funk, é uma homenagem ou uma sátira?

Deleve: Os dois. Homenagem ao funk e sátira à indústria fonográfica.

Bruno: Nem uma coisa nem outra. Aliás, tem 2 'funks cariocas' no disco. Mas o disco tem muita influência de funk, de soul, além de um pouco de reggae. A principal influência do rap sempre foi o funk. O que hoje chamam de funk carioca era chamado de rap nos anos 80. O que nós satirizamos é a indústria fonográfica e não o funk. Gastam milhões em produção, marketing e jabá pra transformar 'picolés de chuchú' em  artistas, vendem os cds a R$30 e  dizem que a culpa é da pirataria. hahahahaha, me engana que eu gosto!

Bitsmag: O hip hop de vocês, predominantemente niteroiense, é menos radical e coloca o carioquês nas músicas. O posicionamento político de vocês é um pouco diferente de grupos de hip hop cultuados como Racionais MC. Comentem esta fase do hip hop brasileiro atual e, em particular, do hip hop carioca.

Deleve: O posicionamento é diferente mas tem pontos em comum. Vários. Pelo menos é o que eu acho ouvindo suas músicas, tanto novas quanto as antigas, mas difere um pouco primeiro porque eles nasceram na favela e nós não, e isso por si só já muda o enfoque da visão e como se fala para as pessoas de seu círculo social.

Bruno: Acho que hoje em dia o Quinto Andar é muito mais politizado, realista e contundente que os Racionais, muito mais. A gente não faz cara de mau e tem senso de humor, mas ironia e sarcasmo podem ter conteudo crítico. A mídia e os próprios rappers estigmatizaram o rap brasileiro. Nós ouvimos vários estilos musicais, lemos livros e vamos ao cinema. Nós temos personalidade, temos senso crítico. Não estamos nessa pra fazer estilo, tirar onda. Nós queremos influenciar a molecada que tá vindo aí. A moda do rap demorou, mas chegou no Brasil. A maioria das coisas gringas que chega aos ouvidos dos leigos aqui é porcaria. Mercado mesmo só existe em Sampa. No Rio ou você é de uma grande gravadora que paga jabá e se dá bem ou você passa fome.

Bitsmag: Marcelo Yuka comentou no UOL que o super shopping de consumo Daslu em S.Paulo é uma incitação à violência. Vocês fariam um show na Daslu como fez Marcelo D2 tempos atrás ao lado do Seu Jorge?

Deleve: Veja bem, fazer show é meu trabalho. Eu tenho que fazer isso. Se eles pagam bem e me convidam eu faço sim. Não faria propaganda para eles, não posaria pro catálogo deles, mas tocaria sim, não vejo nada de mal nisso. Se fosse assim eu também não tocaria no TIM festival nem no VIVO Open AIR por serem eventos de empresas ricas e estrangeiras. Mas penso como ele, é mesmo uma incitação à violência.

Bruno: Cararra! (pra ser bem carioquês) estou muuuuito sem grana, se me chamassem amanhã eu aceitaria! Mas se eu estivesse no mesmo patamar do D2 quando ele foi chamado, não aceitaria, não precisaria. Mas eu, nós Quinto Andar) não somos o D2, a Daslu nunca chamaria a gente!!! Hahahaha.

Beth Ferreira

 
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