|
O
som do silêncio
 |
Taylor
Dupree no festival musical Mutek, em Montreal
Foto: Josh Russell |
Você
sabe o que vem a ser "Lowercase Sound"? Pois é,
em tempos de poluição sonora vem se formando
um novo gênero de música eletrônica. Mas
se você pensa que vai se acabar num club dançando
ao som deste novo gênero, bem, está muito enganado.
O "Lowercase Sound" na verdade é o som do silêncio.
Como assim? Bem, é música gerada em computador
enfatizando sons muito leves, com longos e vazios momentos
de silêncio entre eles.
Criado
por cientistas, entusiastas das máquinas e músicos
experimentais, as gravações lowercase (lowercase
vem a ser "letra minúscula", em inglês) são
baseadas na ampliação de sons de um minuto,
através de um computador, sempre um Macintosh.
Coisa de nerd, claro e de adoradores da plataforma Macintosh,
que tem fã clube ferrenho no mundo todo.
Composições
recentes inclem o som de uma chaleira em ebulição,
proporcionando uma sinfonia de bolhas
Ou então
aquele burburinho de fita cassete em branco sendo tocada num
aparelho de som
Tem ainda uma música composta
com sons da queda de balões de hélio numa chaminé.
Um
desses CDs é tão quieto que aluguns ouvintes
ainda se questionam se há ou não algo gravado
nele.
O
artista que criou o nome "Lowercase Sound", Steve
Roden, de Los Angeles, explica à revista Wired
que Rilke chamava de "coisas inconsideraveis" as coisas que
passam despercebidas, os detalhes, as pequenas nuances. Roden
refere-se ao poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926),
considerado um dos maiores poetas alemães da era moderna.
O
exccêntrico músico do silêncio começou
sua recente carreira lançando um CD com o patrocínio
de uma biblioteca pública de Los Angeles. Porque o
patrocínio de uma biblioteca? Porque simplesmente o
CD é feito de sons de páginas de livros sendo
viradas. O nome do CD é Forms of Paper,
que praticamente não necessita de tradução,
mas para quem faz questão: "Formas de papel".
O
artista gravou o som de páginas de livros sendo
viradas por leitores na biblioteca e depois, com a ajuda
do programa ProTools, com a ajuda do plugin DigiDesign,
transformou estes sons em uma sinfonia "líquida"
Só escutando mesmo, isto é, se você conseguir
As
gravações Lowercase são geralmente
baseadas em máquinas ou objetos de experiências
científicas, seja o som de um celular com a bateria
fraca, ou o som de uma bactéria pipocando sobre
gelo seco e metanol.
Usando
microfones especiais os compositores gravam esses sons
muita vezes imperceptíveis e os amplificam em programas
de computador como o DigiDesign, da Pro Tools. Os sons
são então cortados e acrescentados loops, e
modificados de diversas formas. O resultado é um som
minimalista, quase silencioso.
O
movimento deve muito à experiência sem precendentes
de John Cage, em 1952, quando apresentou a sinfonia
4'33, completamente silenciosa. A diferença
no gênero Lowercase é que estes músicos
na verdade utilizam sons, mesmo que quase imperceptíveis.
E
a empreitada já tem até um selo, o Bremsstrahlung
Recordings, que
acaba de lançar uma segunda compilação,
chamada Lowercase Sound 2002.
E
não pense você que a empreitada não tem
sucesso. O selo, criado por Josh Russell, um bioquímico
de San Diego (California) foi um sucesso logo de cara. A primeira
compilação foi lançada só para
membros de uma lista de discussão na Internet e em
duas semanas 500 cópias foram vendidas.
Este
segundo CD vai serlançado com 1000 cópias, com
um grupo de 28 composições de
artistas de diversos países, incluindo os pioneiros
do gênero, como Roden, Bernard Günter
e Taylor Dupree.
Confira
os sites relacionados nesta matéria:
Digi
Design, da Pro Tools
Site
do selo Bremsstrahlung Recordings
Site
do artista Steve Roden
|