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UMA NOVA VIRADA
Vamos
começar logo confessando: nunca mexemos no FinalScratch.
Achamos importante admitir isso porque a idéia desta
coluna é falar de coisas das quais temos conhecimento
teórico E prático. Acontece que não achamos
quem tivesse o Final Scratch no Brasil. E como esse software/hardware
acabou de chegar, e chegou com potencial de revolução,
não tinha como deixar para depois.
O
Final Scratch, desenvolvido pela empresa holandesa N21T Development,
possibilita você tocar qualquer arquivo de som digital
de maneira analógica. Em bom português, isso
significa que você pode tocá-lo como um bom disco
de vinil. O coração dessa conexão é
a interface "Scratchamp", "uma peça
eletrônica sofisticada", segundo o site oficial
da Final Scratch, que faz a ponte entre o mixer (pelo "line")
e o computador. Segundo o site, esse computador deve ser no
mínimo uma CPU Intel ou AMD de pelo menos 500 HZ, com
entrada USB.
Não
há uma palavra sobre Macs no site. Há um mês,
mandamos uma pergunta para o site oficial sobre disponibilidade
para Mac mas a resposta estamos esperando até agora.
Na outra ponta, estão as pick-ups tocando o vinil especial
da FinalScratch. É esta a parte mais revolucionária
em matéria de tecnologia: esse vinil FinalScratch,
que não tem nada gravado, funciona como um mero veículo,
um hospedeiro, para qualquer faixa selecionada da coleção
de arquivos do computador (que podem ser em AIFF, WAV ou Audio
CD).
E
aí a brincadeira começa a ficar realmente engraçada:
conforme você manipula o vinil FinalScratch (faz um
scratch, dá uma empurradinha, faz um backspin etc.)
os mesmos movimentos acontecem com o arquivo de som no computador.
A posição da agulha é igual também:
se você a coloca no meio do vinil o programa toca o
arquivo a partir do meio. As pick-ups podem ser qualquer par
em bom estado, de Technics a Gemini.O FinalScratch abre uma
multidão de possibilidades: o produtor acaba sua faixa
no estúdio e já pode tocá-la na mesma
noite, transferindo-a para o vinil FinalScratch.
Será
o fim dos dub plates e acetatos, discos de teste caros e de
vida curta. Será um golpe fatal no ato de se tocar
com CDs, pois a praticidade é muito maior e a sensação
é um retorno ao manuseio do vinil normal. O apelo da
imagem clássica do DJ virando vinil, que o CD não
conseguiu derrubar e que certamente nunca temeu o modismo
dos DJs de MP3 (um cara com um monitor e um mouse na cabine?
Que empolgante, né?), permanece inalterado com o FinalScratch.
De longe, será impossível dizer se o cara está
tocando um vinil analógico ou um arquivo digital via
vinil FinalScratch.
A
grande dúvida é se o FinalScratch representa
uma ameaça ao vinil como nunca houve antes. Quantos
não vão preferir baixar músicas ou extrair
faixas de CDs ou vinis em vez de gastar em discos novos toda
semana? Fora isso, DJs podem dizer adeus a mau-jeitos e dores
nas costas já que os cases lotados de vinil podem ficar
em casa, substituídos por um conjunto bem mais leve:
um laptop e os componentes do FinalScratch. E outra: no laptop
pode se armazenar centenas e centenas de faixas, enquanto
um case carrega 100 no máximo.
O
ato de procurar um disco no case, aquela correria desesperada,
também pode virar coisa do passado. Basta dar um "search"
que o FinalScratch encontra o que você quer. É
realista imaginar que se o FinalScratch ficar barato (ao preço
de quase 3 mil dólares, ele hoje é proibitivo
para a maioria) e se popularizar, só os colecionadores
e aficcionados continuarão a comprar vinil. E mesmo
estes terão a atraente opção de passar
todos seus vinis para arquivos digitais para tocar por aí
e deixar os originais intactos, bonitinhos na coleção
na estante. Chega de perder capas e papéis de dentro
nas baladas.
O
garoto-propaganda oficial do FinalScratch é o canadense
Richie Hawtin. Seu parceiro John Acquaviva é outro
entusiasta. Outra vantagem dessa tecnologia que ele aponta
é uma democratizacão bem maior da música.
Sabe aqueles vinis raros, fora de catálogo, que ninguém
consegue achar? Com FinalScratch dá para colocar esses
sons na roda de novo.
"Não
existirão mais aqueles white labels ou discos
difíceis de achar. Todo mundo vai ter o mesmo tipo
de material de base e caberá aos DJs e produtores filtrar
toda essa informação digital e reeditá-la,
reavaliando-a com novas maneiras de deixá-la relevante
outra vez," disse Hawtin no site Furious Green Thoughts.
O último CD de Hawtin, "DE9: Closer To The Edit",
foi todo montado com o FinalScratch (mais sua bateria eletrônica
Roland 909 e um software chamado Electrix Repeater). Ele pega
300 samples de mais de 100 discos de tecno minimal e os reorganiza
como um set de tech-house. O resultado é impressionante.
E a qualidade de som, que às vezes é meio capenga
em arquivos digitais? Hawtin fecha a questão dizendo
que "muitos dos sistemas de som nos clubes não
são lá essas coisas então não
dá para perceber a diferença na qualidade."
Será o começo de uma nova era para a arte de
tocar discos?
CAMILO ROCHA e MARCEL
SK
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